Mostrando postagens com marcador Estudos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estudos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Alguns Aforismos Sobre Performance

1. O que há na performance para que todos a usem e ninguém a queira? O que há na América Latina e no nordeste brasileiro para que todos os usem e ninguém os queira? A não ser nós que na prisão do desejo e abuso alheio, reinventamos o corpo e seus territórios usando sua força ácida e sua ação atômica para fundir as fronteiras, aproximar toques e derramar sobre o mar dos olhos colonizados o grosso petróleo dos corpos solvidos no esforço político de pensar os próprios órgãos, o próprio desejo.

2. Estar em performance é um esforço para ser sincero ao próprio corpo sendo contraditório. Cruzar a fronteira, retirar a fronteira dos cruzamentos. Esforço de ser e estar e been together.

3. Se existem vários corpos no teatro e na dança, a performance seria a mina sob a terra que despedaça e funde esses corpos na explosão.

4. A performance se instaura como um movimento complexo de contaminação que se adapta ao ambiente e seus indivíduos, acoplando-se aos corpos como próteses distintas, faces de interação entre corpos, e entre os corpos e o espaço. A performance é sempre um esforço de amputar-se e acoplar-se.

5.A performance como um esforço político de não conter-se em si. De pensar como somos somos nós. De sermos o movimento entre nós.

(Paisagem - Imagem - Linguagem Sonora - Público - Performer - Situação)

Como havíamos deixado em aberto anteriormente, voltamos agora para discutir os elementos conceituais de composição cenográfica do experimento Cleansed-ES3, desenvolvido pelo Coletivo ES3. Outros pontos ainda serão retomados, mas vamos por partes, as promessas de qualquer forma permanecem e os elementos sobre os quais não discutimos anteriormente e que deixam ainda muito espaço para discussão serão retomados. Vamos lá.
Observemos então os espaços conceituais abordados pelo trabalho, a começar pela idéia de paisagem. Ao buscar a significação da palavra paisagem podemos encontrar nos dicionários da língua portuguesa uma aproximação muito marcante com a idéia de imagem, da paisagem como entidade visual, mas a quê mais de fato nos referimos quando falamos da observação de uma paisagem?
Recorramos aqui a uma abordagem mais contemporânea deste conceito, e então pensemos para tanto no esboço de uma paisagem a nossa frente, seus elementos em toda sua complexidade e simultaneidade. A primeira instância é talvez a imagem da paisagem, seus elementos visualizados, sua plasticidade, contudo pensemos na idéia de imagem não apenas sob o predomínio da visão. Como sugere Christine Greiner (2005), a partir das leituras de Antônio Damásio, ao comentar os componentes neurocientíficos da relação entre corpo e percepção da imagem:
“Para Damásio o termo ‘imagem’ quer dizer um ‘padrão mental’ com uma estrutura construída através de sinais provenientes de cada uma das modalidades sensoriais (visual, auditiva, olfativa, gustatória e somato sensitiva ou somato-sensória)” (GREINER, 2005: 72).

Observando esta noção de fios de encontro entre corpo e paisagem através dos sentidos, e não sob o princípio de prioridade de um sentido, vemos então que a imagem, a paisagem com a qual nos defrontamos ao testemunharmos a cena projetada pelo grupo ES3 investiga, com efeito, esta perspectiva de construção. Parece haver grande consciência deste princípio em sua proposta cenográfica, se pensamos que usualmente a cenografia é tomada como componente visual da narrativa na cena, e que se esquece da perspectiva múltipla da imagem da paisagem.